domingo, 18 de dezembro de 2011

Um capuccino com impossíveis natas e uma pulseira complicadamente comprada



Foi simples e complicado assim:

chegamos no Monumental para vermos um filme que só iria passar de meia noite.

Resolvemos tomar um cafezinho ali perto. Só que eu, como sempre, não queria um cafezinho, e sim um capuccino. Mas dessa vez iria querê-lo com chantilly( aqui, eles chamam de natas).

Olho pro menu, o garçom olha pra mim, Emmanuel olha pros dois e pede seu café a ele.

- Gostaria por favor de um capuccino com natas... poderia ser?

Garçom - Mas temos café com natas... é isso?

Eu- Não, não. Gostaria de um capuccino com chantilly, ou seja, natas. Não quero café e sim capuccino, entende?

Garçom - Hum... então você quer as mesmas coisas que tem em um capuccino só que com natas é isso?

Eu (já rindo diante de tamanha complicação com algo que no Brasil já é colocado por escolha)

- Sim, eu quero um capuccino normal, só que com natas encima, entende?

Garçom- Hum... tudo bem, mas não sei se pode... vou lá dentro falar e já volto, tudo bem?

Eu- Tudo.

Emmanuel me olha com cara de ``desiste antes que ele complique mais a situação`` mas eu não me importo. Tudo que eu quero é a droga do capuccino com natas, oras!


Depois de tempos ele chega e me diz que sim, o capuccino terá natas. No fim das contas, este é trazido a minha mesa e o preço continua o mesmo, mas me faz pensar que certas coisas supostamente simples aqui demoram a se processar... e às vezes nestes pequenos momentos realmente parece outro mundo...e pode ser até divertido observar.

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Procuro uma loja para comprar prendas. Entro em diversas , sentindo que minha taxa não está lá muito boa, mas que preciso achar uma loja e fazer um teste logo que possível. Encontro uma perto de uma parada do metro no Restauradores, loja turística onde há vendedores aparentemente indianos a atender. Vejo uma pulseira que me chama a atenção, decido que o valor coincide com o combinado na troca de prendas do jantar desta noite. Pago e pergunto se posso fazer o teste no balcão, mostrando o aparelho que utilizo. Ele olha-me com um sorriso estranho, mas não me intimido e furo meu dedo, pondo o sangue na fita e aguardando o resultado, que dá 42, ou seja, muito baixa. Ele me olha :


- Diabetes, não é?

- Sim...

Olha-me intensamente como se com os olhos quisesse mostrar uma verdade.

- Diabetes é doença de rico, pobre não tem isso.

Paro, sem nem compreender a estupidez do que ele está a dizer, nem acreditar.

Tudo que me sai, diante de minha exaustão física e pensamentos já fracos é:

- Isso é hereditário, não tem nada a ver.

- Mas é doença de rico, pobre não tem...

- Eu nem sou rica.

- Você é.


E aqueles olhos a me olharem como se a praguejar, como se a me culparem por algo que ele nem tem idéia do que é ou de quem sou ou do que essa doença me faz ser. Fiquei a imaginar depois o porquê de ter sido justamente aquela a loja a ter o que eu necessitava, e justamente aquele vendedor estúpido a ter me visto fazer o teste e falar algo tão desnecessário... E a cada dia se entende que em qualquer lugar podem se encontrar pessoas boas, mas da mesma forma encontramos pessoas de cabeça fechada, que não sabem ou pior, sabem o quanto palavras podem magoar.


E tudo de que precisamos, no fim das contas, é de um filtro para bloquear qualquer tipo de energia negativa...mas será que conseguimos?


















sábado, 10 de dezembro de 2011

A panela quente







- Vamos assistir a um filme, amor?


Ninguém quer se levantar. Mas vão.


Tela acende.



Casal conversa na cozinha. Ele pergunta se pode fumar lá fora.


Silêncio, algo que foi interrompido.


Olhar chateado da rapariga na tela.


Ele sai. Ela fica. A olhar para o arroz que está a se feito.


Água borbulha.


Ela desliga. Ele volta e diz que era para deixá-lo ligado.


Olhares que não se cruzam porque ela não deixa.


Corpos que não se cruzam porque ela não deixa.


Ele prepara a carne, põe na panela.


E pergunta:


- Tais chateada comigo?- e a abraça, e no canto do ouvido, sussura: - Desculpa...


E ela entende. Entende que não foi por mal. Entende que é bem difícil ficar perto dele e não querer tocá-lo, abraçá-lo, senti-lo.


Aceita suas desculpas e o beija por inteiro.



Tela apaga.


- E aí, gostasse?


- Sim, sim... por acaso me lembra um casal que conheço...


- Hum... acho que sei de qual você está falando... por acaso um é louco pelo outro, não é?


- Sim, sim... e até brincam de se imaginar juntos pelo resto da vida...


- É, engraçado.... engraçado porque muitas vezes as promessas mais sérias começam como brincadeiras...


- Sim,sim... mas e agora, vamos brincar de sermos felizes?


Beijos intensos e apertados.


Fim de cena. Tela preta onde aparece uma legenda:


``CONTINUA...``




quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Em busca de um bom jazz



Ser metódica. Tenho de ser metódica.




Chego em casa, espalho as roupas. Troco. Montanhas de roupas.


Montanhas de papéis.


Aprendo a tirar o lixo.


Aprendo a colocar a roupa para lavar.


E a alma? Me pergunto...


- E a alma, Emmanuel?



Me olha. E olhamos juntos para uma crise que cada vez mais cresce e cria raízes nas pessoas, e vemos em seus rostos cansados no metro, e acabo pensando se acabarei por me tornar mais uma delas, com olhar no chão e pensamentos preocupados... apesar deles já o serem.




- E se eu não conseguir?


- Você vai, porque tudo tem que dar certo... e você tem que estar perto de mim.




Viver em um país em crise muitas vezes nos dá uma sensação parecida a de vivermos em estado de sítio. Subitamente se percebe que a base que segura a todos nós pode ser puxada como um tapete. Olho para lojas, comboios, carros, e me pergunto como em uma crise comidas continuam a ser feitas, roupas continuam a serem compradas, pessoas continuam a viajar...o que é uma crise, afinal?




Vamos para a casa de um grande amigo. É servido o vinho, levamos bolo de bacia. Nos apresenta sua amiga.


- Terei de despedir pessoas este mês.


- Crise.


- Nos pegando a todos.


- Mas vamos mudar de assunto, sim?




É até estranho se iniciar uma conversa e não se mencionar este nome... ``crise``. Parece um assunto obrigatório e mesmo quando a palavra não está sendo mencionada, está lá, nos olhos, nos gestos de pessoas que nos rodeiam. Mas, ao final de tudo, ainda há o vinho bom e barato... e aquele cafezinho ao som de um bom jazz... e a vida continua, assim como o jazz, cheia de improvisações...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O depois do Adoro-te



- Adoro-te.

- Também. Adoro-te muito.

Abraço apertado. Chuva caindo enquanto somos apenas dois corpos juntos no banco de um auto-carro.

- Mas ainda não me peça.

- O quê?

- Para dizer o que eu ainda não estou preparado para dizer.

Sorriso fechado para mim.

- Tá bom, não pedirei.

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- Blá, blá, dia, blá, blá, feliz, blá, coisas,blá...

- Blá, blá, cama, blá, blá, quente, blá, blá, gosto,blá...

- Blá, blá, sinto, blá, blá, quero, blá, blá, paz...

- Amor, me passa aquele telemóvel ali, por favor?


Estaco.

Boca seca. Engulo. Percebo. Ouvidos atentos.

Paraliso.


- Espera. Repete.


Silêncio. Sorriso para ele. Rostos colados.

Ele engole em seco. Respira... e finalmente repete:


- Amor...- e não é suficiente para mim.

- Repete.

-Amo-...

- Repete.


Segundos equivalentes a dois minutos em outra dimensão, nesta nossa dimensão única de pulsação de força descomunal em que vivemos, eu e ele, nós dois. Ele me olha. Aproxima sua boca da minha, eu da dele. Olhos tão próximos que mal se consegue focá-los perfeitamente.


- Amo-te muito, Drica...


Rio de lágrimas que desce, formado por uma sensação maravilhosamente inquietante por sentir esta mesma coisa por este mesmo alguém que me vê, ali, sem máscaras nem medo, lado a lado, e por amá-lo tanto quanto.


- Também, muito mesmo...


E assim a noite fria se cala diante de tão inusitada cena, enquanto que nas ruas pessoas tomam cafés e se divertem ao assistir um jogo qualquer.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A fila que não anda e o tempo que passa mas não muda




Acorda-me minha mãe.

- Filha, mais gripada?
- Sim, mãe, sinusite.
- Mas também tosse e também gripe... e talvez febre. Filha você tem de ir ao hospital! Eu vi uma notícia de uma intercambista em Braga que estava doente e só foi se internar um dia antes de voltar pra cá, e faleceu! Não brinque com essas coisas...
- Tá, mãe... eu vou tentar ir sim...
- E como foi a mudança para a casa nova?
- Ah foi normal... todo mundo me ajudou...


Frio. Tosse. Sede. Até meios sorrisos.
Decido: tenho de ir ao hospital.
Almoço com quem gosto.
Passei romântico: ir ao hospital e passar a tarde neste, onde as dimensões de tempo parecem não existir.


HOSPITAL SÃO JOSÉ:

Passadas uma hora e meia.
- Licença...quantas pessoas faltam na minha frente?
- Hum...oito.

Passadas duas horas e meia.

- Licença...quantas pessoas?
- Hum... de dez a onze-

Passadas três horas até quase quatro.

- Licença..?
- Onze pessoas.
- Mas como assim?! Eu já estou há quase quatro horas aqui e o número de pessoas não diminuiu, até aumentou!
- Sim, mas é por que se chegam casos mais urgentes eles são atendidos primeiro...


Penso "Já paguei, e agora? Não me posso ir!" Emmanuel me olha.
Saímos um pouco. Resolvo então me utilizar da peça "Eu sou diabética, tenho horário para me aplicar e comer..." Para alguma coisa a diabetes tem que servir, não é? ;)

Inocentemente chego ao balcão de informações e informo esta minha problemática de ter de seguir uma rotina certa... Homem do balcão de informações(o legal, não o chato!) diz que se eu quiser posso ir lá dentro pedir comida se preciso. Penso "Não, comida não!Quero é ser atendida logo nesta merda!"

Mulher legal(não a chata em pé) atrás do balcão:
- Você pode ir lá dentro explicar sua situação, explicar que precisa ser atendida mais rápido porque tem horários a seguir...- Homem legal concorda com ela. Porta aberta para a quase liberdade! Me indicam para ir em frente, atrás de uma porta verde, e é o que faço.
Ao chegar lá, um mar de velhinhos estão em caminhas de rodas, esperando seus medicamentos, enquanto familiares os acompanham. Me aproximo do médico que está no computador anunciando o nome do próximo sortudo a ser chamado. Explico-lhe tudo.
- Hum... mas temos comida e insulina aqui.
- Mas a Lantus não... e eu tenho horário para aplicá-la.
- Qual era o horário?
- Sete e meia, mas agora já passou... - Ele pára e pensa.
- Tá, eu vou te atender, senta aqui um instante, sim?

Concordo e após momentos sou atendida.
Me ouve, pergunta e me passa antibióticos junto a outros remédios.

- Sua sinusite é crônica e deve ter piorado, você deve estar tendo uma crise...
- Mas no caso, se é crônica eu tenho que tentar ir pra um médico de família depois, não é?
- Sim.
- Mas é complicado, demorado também, não é?

Ele sorri.
- Sim, nem eu tenho um.

Simples assim, como só um sistema de saúde público, até na Europa, pode ser...
Saio com Emmanuel e vamos para casa. Farmácia? Todas fechadas pois já passam das nove da noite.
- Tudo bem, amanhã compramos...

... e assim, novamente, sou bem-vinda ao sistema de saúde português!

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Um dia de chuva.




- Foi naquele dia.

- Que dia?

- Não sei, um dia. Um dia de chuva, se não me engano.

- E o que aconteceu?

- Dançamos?

- Não, sim! Sim... ao som de uma música de jazz... qual era, lembras?

- Sim, sim...acho que uma de Ella Fitzgerald...

- E como foi? Como foi?!

- Puseste tuas mãos em volta de meu pescoço, delicamente, e eu encostei meu rosto no teu, sentindo teu perfume e sentindo que estavas a sentir o meu... dançamos ao final no ritmo da chuva e do vinho que havíamos tomado anteriormente.

-Não, não! Te enganas!

- Em relação ao quê? Ao vinho?

- Não.

- Ao teu abraço em volta de mim?

- Não, não.

- À nossa dança?

- Não,não, não!

- Ao quê, então?

- A tudo. Pois não houve dança naquele dia, nem abraços, nem teu perfume junto ao meu...

- E porquê não?

- Por que naquele dia não pude estar ao teu lado, devido a greve de comboios...

- Ah, foi... droga de greve de comboios!

- Sim, droga de greve de comboios...


Pela janela um vidro cinza se espelha, atrapalhando romances em fina estampa estrelada de melancolica... Lisboa é bela, ao final de tudo, e complicada como apenas ela sabe ser...

pena não estar ao teu lado hoje.


Malas se arrumam através de mãos geladas.

Mais uma nova etapa.

Mais desafios.

Às vezes parecem maiores que eu.

Mas tenho de fazê-los menores e, de acordo com o tempo e força de vontade, conseguirei.


Stars shining bright above you

Night breezes seem to whisper, 'I love you,'

Birds singing in the sycamore tree

Dream a little dream of me ...


just dream a little dream with me, honney.





quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O copo de música


- E eu poderia simplesmente encher este copo de música, assim como os teus pensamentos.
- Pois encha... o copo.
- Primeiro colocaria aquela tua antiga música preferida, de Keane. Depois ou até antes aquela outra, de Oasis...
- E por fim?
- Criaria uma música para nós, que suplantasse todas as outras, que não nos valem mais de nada.
- É verdade, não valem... mas valeram um dia, não valeram?
- Sim, sim, e é isso que te ronda a cabeça, eu sei... mas tens de confiar em mim...
- Eu sei, e eu confio...confio tanto que dá medo. Mas contigo não quero ter medo de nada... não
mais.

E talvez assunto encerrado.
E talvez uma história a nunca ser encerrada.
Apenas sentida até não se poder mais.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Eu, você e isto.






- Se eu pudesse te tirava esse cigarro da boca.


- É?Mas eu te odiaria, te chamaria de controladora.


- A merda é justamente essa. Então eu sigo, respeitando teu cigarro, tua fumaça, que seca teus pulmões e começa a mexer nos meus. Mas simplesmente não me importo... é quase como se o cigarro fosse parte de tu. Como se fosses parte de algum filme noir, com um charme terrível nesses olhos que não me canso de olhar e que me causam arrepios. Droga de cigarro!


- Sim, droga de cigarro. Eu sou uma droga?


- Pior que não.


- Te quero.


- Também te quero.


- Então fim de papo.




Beijos quentes. Calor. Ânimo que parece renascer das cinzas de uma crise que mais parece um barco pedindo para afundar. Mas há sempre pessoas a querer crescer, a querer viver bem, a querer serem felizes.


Pois há sim, há o ``continue`` e o ``não continue``. E temos sempre de escolher o ``continue``, como um botão sempre a ser apertado, apertado, mas afinal não somos todos máquinas, somos pensamentos, emoções, caras cansadas no metro, no comboio, olhando a vista bela e melancólica agora borrada pela chuva, em meio a um imenso mar que parece querer engolir uma pequena ilha, ali, aonde parece haver um farol.




- Às vezes, meu caro, é tão simples como escolher ou não uma taça de vinho.


- Sim, e é por isso que sempre te escolho... mas até quando beberemos vinho?


- Não sei, deixa o tempo decidir. Com você não consigo ser pragmático.


- Igualmente.



E todos os dias há vinho em Lisboa, chovendo, chovendo e formando rios de lágrimas, mas também de sorrisos fraternais que inundam nossos mais íntimos sentimentos.




domingo, 30 de outubro de 2011

Mão na mão



E havia então um som que emanava e permeava todo um caminho de segredos e mistério.
E quase se fazia música, de tão intenso. E os olhos, que se fechavam e abriam...mais fechavam do que abriam, como janelas à espreita do sabor do desejo.
E como se antes não soubessem exatamente que caminho seguir, mas sempre indo em frente,
sempre, sempre... com palavras que flutuam pelo imenso espaço que podem ser pequenos grandes momentos. Em horas. Em segundos. E é sempre assim, um atrás do outro, seguidamente.
Mas aqueles olhos...não eram comuns, eram?
Poderiam pois parecer com milhares já existentes, mas dentro deles gritavam nada. Dentro deles uma paz habita, uma suavidade inexplicável... e nem precisa ser verdade. Só pensamento... e antes que novamente as palavras escapem me fecho em devaneios.
Como se o conhecesse, realmente.
Como se fosse tão simples uma vaga idéia do que alguém pode ser se tornar real.

E dançam as palavras
E dançam os sons
E dançam histórias do que foram então...
tristezas, alegrias, pesar, solidão
,
com sorrisos de bom dia,
lado a lado, mão na mão.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Duas cabeças que parecem olhar pela janela.

E havia então um garoto, andando à beira do metro.

E havia então outro garoto, andando à beira de algum precipício psicológico.

E havia então uma alegria no olhar azul e angelical.

E havia então uma melancolica indescritível que me sugava aos poucos...será?


- Nem te conheço, mas pareço saber quem és, apenas por que se assemelhas a alguém que conhecia há muito, muito tempo atrás...

- Não gosto disso... isso é bom? O que essa pessoa te fez?

- Nada!



E tudo se cala.

Duas intensidades deveriam se encontrar?

Mas por quanto tempo mais?


Tick-tack-tick-tack...


- E se um dia eu for realmente embora?

- Mas eu já vou, independente de você ir ou não...

- Sim, sim...

- ... eu também sentirei falta.



E assim se fecham os olhos, corpos, livres pelo mundo afora.

Somos afinal jovens e podemos sonhar o que quisermos, e lembrarmos como quisermos.

Podemos ver a chuva caindo pela janela e ouvir um avião passar tão rápido quantos nossos pensamentos e reflexões...




...sei lá. Só é simplesmente bom e saudosista de um jeito triste, e de certa maneira.

E assim tudo se passa... enquanto que a fumaça do cigarro é devorada pela chuva...

e nossos medos e agonias são levemente esquecidos diante da intensidade do agora.




quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A Reconstrução interior




Foi aí que vim entender. E é verdade.




Em um intercâmbio você entra em choque com outras culturas e identidades, independente da língua ser a mesma ou não. Nossa! E como isso pode ser assustador... Você começa e se perguntar se você é suficiente... suficiente para amigos, colegas, novas pessoas, família e até para você mesmo. E como isso pode ser assustador. Assustador porque por mais que você não queira criar algo ou alguém de quem depender se criam laços sim, e se tornam nova família. Assustador é admitir quando se está errado, e assustador é se perceber o quanto o próprio mundo pode estar errado...


Mas você sempre pode ter a chance de tentar ser alguém melhor, não é verdade?


Bem... talvez não sempre, mas não se pode desistir... e é isso aí, estou nesse caminho e nele continuarei até onde puder ser melhor.



quarta-feira, 5 de outubro de 2011

UM RESUMO RÁPIDO E MINIMAMENTE DESCRITIVO DAS COISAS E...ALGO MAIS.




E chegamos. Apartamento não tão em boas condições, suposta ``senhoria`` dizendo que precisaria logo do dinheiro, visto que havia sido assaltada. Problema: apartamento conjugado, tínhamos de passar uma pelo quarto da outra e até do da dona para chegar no nosso. Outro problema pior: fui recebida por Bartush, um polaco que estava a morar no apê de baixo( da mesma dona) e que estava assustado pois seu quarto acabara de ser arrombado.


Resumo: Entre idas e vindas e estresse de familiares e nosso à procura de um apartamento, conhecemos Daniel e Ana Karol, um casal maravilhoso de quem ficamos muito amigas. Ana K. é irmã da chefe de minha amiga Lua. Eles insistiram para que mudássemos para ser apartamento, onde dividiríamos as despesas. Depois de duas semanas aqui em Lisboa quase três decidimos nos mudar para lá, mesmo sendo em Carcavelos e portanto, mais longe da faculdade.



------------------------------------------------------------------------------------------------- Reunião primeira de todas do Erasmus.


Reitor fala belas palavras sobre mudarmos primeiro a nós mesmos para depois irmos mudando o próximo e assim por diante. Inúmeros países misturados. Tereza A., coordenadora de estágio que todos conhecíamos apenas por email, marca uma reunião para o outro dia de manhã cedo. Neste dia conhecemos Christian, um italiano que só sabia falar inglês e Evelina, uma polaca que havia feito seis meses de português e portanto fala bem( fiquei orgulhosa de saber que pessoas fazem cursos para aprender nossa língua, bateu um orgulho nacional...). Conversamos todos, misturando inglês e português. Divertido.


Outro dia de manhã. Reunião.

Eu e Luana chegamos. Christian nos vê e vem sentar perto de nós.

Nos diz que para recebermos a pasta que ele recebeu temos de assinar no nosso nome na lista que está na mesa central do auditório. Vamos lá, procuramos nosso nome. Tereza A. nos olha com indisfarçada indiferença quando chegamos para lhe falar:

- Você sabe porque nossos nomes não estão na lista?

Ela sorri e diz:

- Porque o nome de vocês não estão na lista?

Nós, ingenuamenete rimos e novamente explicamos que não sabemos.

Ela, em seu triunfo final de ar superior e sorriso irônico nos revela:


- Vocês são brasileiras, queridas. Esta reunião é apenas para quem é da Europa, apenas Erasmus.

``Toma essas, garotas!``

- Então o que fazemos?

Ela - Vocês podem ir se inscrever normalmente na secretaria que é lá embaixo.


E é isso aí, quem é do Brasil se vira só no final das contas...

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Ontem fui com Evelina para uma festa do Erasmus, entrada Free e duas sangrias Free para mulheres. Parecia uma discoteca como havia para mim quando era mais nova, no Brasil. Um lugar escuro com música meio alta e onde para se dançar todos acabavam se vendo, não deixando ninguém muito a vontade. Meninos que só queriam saber de pegar alguma menina, seja ela qual fosse e qual parecesse talvez mais fácil. Saímos dali e vamos encontrar um amigo dela, que acabo conhecendo, de Madrid( que é para onde eu e Lua vamos próxima semana yeah!).


Começa a estar realmente frio lá fora. Me sinto um pouco outsider nesse mundo. Às vezes, por mais divertido que seja conhecer novas pessoas e novas culturas e mundos, você parece ser apenas mais um naquele mundo inteiro de cores não tão fortes. Fiquei pensativa. Me diverti mas fiquei pensativa. E não sei se foi verdadeiro tudo.


Como se eu sentisse falta de uma rotina, de repente. Como se só a arte pudesse realmente me sentir útil nesse mundo... como se só através dela eu fosse alguém. Viva.

Mas tudo é aprendizado, repito a mim mesma. E durmo, durmo, um sono pesado de vinho e sangrias...










quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Pré- Viagem Parte(2)

E foi tudo assim. As malas se fizeram nos últimos momentos, criou-se a festa de despedida na quase já última semana. Houveram duas. Uma mais para amigos, outra mais para família. Depois foi se despedir da psicóloga, da fonodióloga, de professores. Lembro de um em particular, alguém a quem admiro muito e ao mesmo tempo tempo, tenho respeito mas também certa indisposição que dura alguns instantes apenas. Estava eu a fazer a prova final da cadeira de Iluminação. Tudo certo, tudo escrito. Olho para ele. Mestre. E como dizer adeus?

Levantei. Entreguei a prova.

- Até...( poderia dizer ``mais``,mas escolhi especificar...) daqui a um ano, sim?

Ele nem fala nada. Levanta e vem me abraçar, sério, e me deseja sucesso nessa nova empreitada. Abraço de pai-educador-aperreador que amo.

- Brigada, professor... pro senhor também, tudo de bom...

e saio. Nem o Cac conseguiria deixar de ouvir meu suspiro de alívio por ter conseguido dar um último pré-intercâmbio abraço no meu professor preferido ...


Heli, adorei ver minha falta sentida em seus olhos. Grande amiga. De resto foram abraços apertados. Família rindo. Comida aos montes. Foi tudo num bolo só. Acabou que nem pensei mais se iria sentir saudade. Acabou que o dia chegou, e no aeroporto o adeus veio recheado de cuidados e precauções(pais, vovós...) a serem tomadas. Já estava a ficar louca!

Também amo vocês, amigos e família... e até daqui a um ano, ou quem sabe mais, dependendo do acontecimento das coisas...


domingo, 18 de setembro de 2011

A rosa no chão( Parêntesis entre Pré-Viagem parte 1 e Pré-Viagem parte 2)


Eu só sei que não deveria ter te conhecido. Nunca. Nunca mesmo. É só o que sei. É que nunca deveria ter te conhecido...e é apenas isto.


Ainda anteontem eu e minha amiga Luana, minha companheira na faculdade e agora de apartamento, vimos uma velhinha que estava a falar sozinha consigo mesma no restaurante em que estávamos a comer. Me perguntei se estava realmente com problemas ou se ela via espíritos que nós não conseguíamos ver. Lua disse que deveria ser um amigo imaginário dela.



Comentei disso com Ana Carol, irmã da chefe de Lua que mora em Portugal e de quem estamos muito amigas. Ela me disse que aqui em Portugal pessoas de terceira idade costumam mesmo ser muito sozinhas, muitas abandonadas ao relento, colocadas em asilos...corpos descobertos ao acaso sem vida. Fiquei triste com isso. Estava até animada pelo fato de aqui os idosos não fazerem questão de serem atendidos prioritariamente, de até sentirem-se ofendidos com isso. E mais do que nunca achei que sim, aqui as pessoas pareciam viver mais tempo. Mas será que adianta viver mais tempo assim e acabar só?


Ao final de tudo somos jovens e tudo é desculpa para sorrir, se divertir, prazer da carne. E nem me importo. Decidida a quebrar barreiras. É tudo demais, demais da conta para quem aprende aos montes.



Fomos para um bar onde se toca karaokê. Parei e decidi que iria cantar lá. E cantei. Primeira barreira quebrada em parte. Público não tão receptivo como o Brasil. Voz não tão bem aquecida devido a falta de tempo e cansaço para aquecê-la. Mas me diverti, e é isso que importa. Docas, dança, olhares, cheesebúrger de rua. Quase me pego a pensar que em parte me volto ao Brasil. Mas não é, mesmo com tanta música brasileira a tocar aqui. Mesmo com tantas ladeiras que lembram Olinda e casas caiadas como as do Recife Antigo, com a diferença de não estarem lascadas de tempo ou corrupção de faltas de cuidado. Vai ver Lisboa estou começando a te entender mais... vai ver Lisboa estais me conquistando... e quem sabe? Quem sabe? Talvez só a rosa sabe...


Sim, a rosa. Aquela... adormecida no chão. Esperando para ser apanhada por uma mão que a valha. Esperando para não congelar naquela rua molhada de beijos...

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A PRÉ- VIAGEM PARTE (1)





Não houveram lágrimas em minha despedida. Foram apenas engolindo adeus, todos. Minha vida estagnada, me pedindo para ir embora. E eu a pensar que em algum lugar de Lisboa, a arte a me esperar, ainda dormindo, mas viva, secretamente, a nortear pensamentos, a sacudir melancolia... a sorrir. Meus sonhos me sorriram, apesar de uma certa decepção por saber que lá a língua seria a mesma que a minha... me senti irresponsável, de certa forma. Seria mesmo um intercâmbio? Sim,sim. Mas às vezes ainda me pego a pensar que não?


Foi de um arroubo assombroso que adentrei a sala, sedenta de viajar, fazer intercâmbio. Lá, na Coordenação da Cooperação Internacional da Ufpe. Não me sorriram nem aliviaram, quando perguntei:

- Para que países posso fazer intercâmbio pelo meu curso de Artes Cênicas?

- Portugal ou França.

- E o que precisa?

- Para França certificado, para Portugal apenas os documentos de praxe, que incluem uma declaração que podemos lhe mandar por e-mail.


Quase choro. Queria tanto ir para um lugar em que falassem inglês! Ou pelo menos tentar falar francês, mas sem certificado não conseguiria jamais.


- Tudo bem, então.- aceitei sem aceitar. Saí escolhendo Portugal à força...