Ser metódica. Tenho de ser metódica.
Chego em casa, espalho as roupas. Troco. Montanhas de roupas.
Montanhas de papéis.
Aprendo a tirar o lixo.
Aprendo a colocar a roupa para lavar.
E a alma? Me pergunto...
- E a alma, Emmanuel?
Me olha. E olhamos juntos para uma crise que cada vez mais cresce e cria raízes nas pessoas, e vemos em seus rostos cansados no metro, e acabo pensando se acabarei por me tornar mais uma delas, com olhar no chão e pensamentos preocupados... apesar deles já o serem.
- E se eu não conseguir?
- Você vai, porque tudo tem que dar certo... e você tem que estar perto de mim.
Viver em um país em crise muitas vezes nos dá uma sensação parecida a de vivermos em estado de sítio. Subitamente se percebe que a base que segura a todos nós pode ser puxada como um tapete. Olho para lojas, comboios, carros, e me pergunto como em uma crise comidas continuam a ser feitas, roupas continuam a serem compradas, pessoas continuam a viajar...o que é uma crise, afinal?
Vamos para a casa de um grande amigo. É servido o vinho, levamos bolo de bacia. Nos apresenta sua amiga.
- Terei de despedir pessoas este mês.
- Crise.
- Nos pegando a todos.
- Mas vamos mudar de assunto, sim?
É até estranho se iniciar uma conversa e não se mencionar este nome... ``crise``. Parece um assunto obrigatório e mesmo quando a palavra não está sendo mencionada, está lá, nos olhos, nos gestos de pessoas que nos rodeiam. Mas, ao final de tudo, ainda há o vinho bom e barato... e aquele cafezinho ao som de um bom jazz... e a vida continua, assim como o jazz, cheia de improvisações...
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