sábado, 14 de janeiro de 2012

A garrafa de água mágica e o saco plástico de ouro.


- Amor, vamos?
- Decidiste?
- Sim, amor, vamos mesmo.

Penso que é mesmo a hora certa de ir, apesar de agora estar gostando muito de Lisboa, ainda não sinto ser o lugar certo para deixar fluir a arte que quero. Mas não vou mentir que sentirei falta do ceguinho que toca no metro para ganhar gorjetas, das estações limpinhas e geralmente não tão cheias, do Bairro Alto com sua beleza esplendorosa que enche os olhos e... de minha família portuguesa, que me preenche a fome e o coração.

Engraçado lembrar que em um dia estava a ter sede. Chego na frente da máquina. Quero evitar comprar água para não gastar, mas estou sem garrafinha de água e portanto não terei como repor água no Conservatório. Penso, olho as opções. Decido pôr o número para ver quanto custa. Ponho, se não engano, o 57. Aparece, se não me engano, 60 cents. De repente, sem nem eu ter posto dinheiro nem nada, a garrafa é escolhida pela máquina e desce, jogada. Saem o troco de uns 40 cents. Estaco, maravilhada com a sorte e coincidência de algum pobre alguém que ali pôs o dinheiro antes para a mesma coisa mas não soube escolher e portanto perdeu um euro, que eu ganhei. Fico a sorrir com esta coincidência e...bebo a água toda.

O comboio chega.

Entro. Entra junto um homem tocando sanfona e aconchegando o ambiente. Em seu ombro, um cachorrinho que segura na boca um copinho onde se põe moedas. Decido gastar meu dinheiro ganho pela sorte nisto, feliz por ouvir boa música e por ter água para beber. O homem me sorri e sorrio de volta. Vai ver acredito que, mesmo no meio do caos e stress do dia a dia, ainda há espaço para se recolherem e se doarem boas energias.


Em um dia de chuva...

Chegamos eu e Emmanuel na estação de metro de Marquês de Pombal. Ele comprou uma ``camisola``(aqui significa blusa para o frio) e eu comprei um presente giro para minha tia-prima portuguesa. Estacamos ao perceber, antes mesmo de subir as escadas, que está a chover, e que isso estragará o belo embrulho do presente de minha tia. Não quero arriscar. Até brinco ao ver a mulher da limpeza da estação:
- Amor, eu estou quase a pedir um saco plástico para ela.
Ele não me leva a sério mas, após ver que a chuva só engrossa e que talvez seja o único meio de salvar o embrulho, acata. Vou com ele até um funcionário que também trabalha lá junto com a mulher e lhe pedimos um saco plástico, mesmo que seja de lixo, apenas para não molhar o embrulho. O homem fala com a mulher e nos olha com a cara nada simpática, como se estivéssemos a lhe pedir dinheiro.
- É porque os sacos não são nossos, são de uma empresa então não podemos dá-los.- Emmanuel até tenta explicar que seria apenas um, mas o homem nos corta e agradecemos, saindo logo em seguida diante de tamanha estupidez.

- É por isso que muitas coisas não andam para frente aqui.
- Pois. - É tudo que posso dizer me lembrando que no Brasil uma coisa que nunca se recusa a ser doado é um saco plástico.
Olhamos novamente para a chuva, ela olha para nós. Vemos uma menina de cabelo escovado prendendo-o e pondo-lhe o cachecol por cima. Por coincidência, ao ouvi-la falar ao telefone, notamos ser brasileira. Vai-se. Passam sombrinhas e pessoas, pessoas e sombrinhas e afinal decidimos. Emmanuel pôe a sacola de sua roupa encima do embrulho e eu guardo sua camisola em minha bolsa. Corremos. A chuva engrossa. Paramos na frente do banco e sentamos. Passa um táxi em alta velocidade, descrevendo um arco de água no ar que quase nos molha. Só não o chamamos de bonito.

Mas ao final de tudo, o que realmente importa é...chegar em casa, subir os cinco lances de escada, poder rir e ficar cansado perto de quem realmente te ama... e te ouve.




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