quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

COMO UMA PAREDE

Foi bem assim:
- Para conseguir consulta com médico para os que não possuem utentes, venha amanhã antes das oito.

Acordo. Dia que ainda é noite, porque aqui é assim, manhã é muito cedo é meio madrugada, é noite. Trocar de roupa. Passar água na cara. Ter coragem de enfrentar o céu escuro e o frio absurdo que traz a manhã. Comer pão com queijo e presunto ao lado do leite de soja frio. Mas vou-me, com cachecol, casaco e tudo.
Atravesso a rua, afinal o posto não fica longe. Subo as escadas, primeiro andar, sem elevador, e me cansa. Chego arfando lá encima e me deparo com 4 figuras : velhinhas que ali estão a esperar o posto abrir. Uma se encontra deitada encima da escada, duas muletas encostadas no chão. Outras duas estão sentadas em um mesmo degrau de escada, enquanto a outra fica de pé ao meu lado. Cumprimento-as, descobrindo que o posto ainda se encontra fechado. Me perguntam quem será meu doutor, nem sei, e assim respondo. Logo após chega mais um senhor, esse mais novo, mas não tão novo assim, deveria ter uns 50 anos, com o dedo enfaixado e sem alguns dentes. Teve algum acidente e está vindo sempre para lhe conferirem os pontos.

Conversa vai, conversa começa a vir... e uma das velhinhas começa a contar como perdeu o marido e tudo por causa de um homem, suposto cliente que foi vê-lo no dia em que morreu. No final não entendo se ele morreu de AVC ou baleado, só entendo a dor nos olhos dela, que vêm junto com as lágrimas. Imagino como deve ser ruim perder alguém que se ama tanto... O homem atrás dela sentado também fica intrigado como eu,mas acaba que fica um silêncio austero. Outra menina chega, essa mais ou menos de minha idade, e logo após, finalmente, alguém que as velhinhas conhecem, uma mulher arrumada que chega com uma maleta. Ela abre a porta e as velhinhas começam a se levantar. A outra que estava deitada, com cara ranzinza, tenta com todas as forças se segurar nas duas muletas, mas vendo que não consegue, geme ``ai,ai...`e todos vão ajudá-la. O homem lhe diz que não deveria estar vindo mais pra postos assim, com escadas e tudo o mais. Ela lhe responde resignadamente que se não vão até ela, ela têm que vir e pronto e todos se calam, assentindo. Todos entramos na fila certa de quem chegou primeiro e lá dentro tudo se arranja, cada um com seu médico. Descubro que o meu na verdade só virá de meio-dia, e quase amaldiçôo a outra secretária que me disse para vir tão cedo!


A manhã passa e...

...chego de meio-dia, pois serei a segunda a ser atendida, supostamente meio-dia e quinze. Descubro que o médico se atrasou. Passa-se uma hora... me mandam para a sala de espera de cima. Subo mais escadas e me sento, lendo uma revista ,ali, jogada na mesa. Meu nome é chamado no alto-falante mas não dizem o consultório então saio feito uma barata tonta atrás, até que uma senhora sentada, também paciente, me indica: consultório 4.

- Olá, tudo bem?
- Olá... tudo sim, caminhando...
- Então, qual é o seu problema? Já estou a perceber que estais um bocado constipada, sim?
- Na verdade eu vim porque sou diabética e estou aqui de intercâmbio e preciso fazer exame para saber quanto está minha glicemia, e para isto precisava de uma requisição. Fora isto sim estou um cado constipada e também tenho sinusite então antes estava tomando Aerus mas parei porque acabou e...
- Te passarei então a requisição e também uma receita para tomares Aerus...
- E em relação a minha gripe?
- Te passarei Bisolvon ou Paracetamol. Mas é isso vá fazer o exame, não se pode uma pessoa diabética sem saber suas taxas de glicemia, sim?

( Isso tudo se passou sem que me tocasse um de
do, nem realmente demonstrasse algum interesse em me examinar ou pelo menos tentar saber se estava tudo bem...)


Saio dali me sentindo uma parede. Talvez já seja mesmo hora de partir, afinal...





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