domingo, 18 de dezembro de 2011

Um capuccino com impossíveis natas e uma pulseira complicadamente comprada



Foi simples e complicado assim:

chegamos no Monumental para vermos um filme que só iria passar de meia noite.

Resolvemos tomar um cafezinho ali perto. Só que eu, como sempre, não queria um cafezinho, e sim um capuccino. Mas dessa vez iria querê-lo com chantilly( aqui, eles chamam de natas).

Olho pro menu, o garçom olha pra mim, Emmanuel olha pros dois e pede seu café a ele.

- Gostaria por favor de um capuccino com natas... poderia ser?

Garçom - Mas temos café com natas... é isso?

Eu- Não, não. Gostaria de um capuccino com chantilly, ou seja, natas. Não quero café e sim capuccino, entende?

Garçom - Hum... então você quer as mesmas coisas que tem em um capuccino só que com natas é isso?

Eu (já rindo diante de tamanha complicação com algo que no Brasil já é colocado por escolha)

- Sim, eu quero um capuccino normal, só que com natas encima, entende?

Garçom- Hum... tudo bem, mas não sei se pode... vou lá dentro falar e já volto, tudo bem?

Eu- Tudo.

Emmanuel me olha com cara de ``desiste antes que ele complique mais a situação`` mas eu não me importo. Tudo que eu quero é a droga do capuccino com natas, oras!


Depois de tempos ele chega e me diz que sim, o capuccino terá natas. No fim das contas, este é trazido a minha mesa e o preço continua o mesmo, mas me faz pensar que certas coisas supostamente simples aqui demoram a se processar... e às vezes nestes pequenos momentos realmente parece outro mundo...e pode ser até divertido observar.

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Procuro uma loja para comprar prendas. Entro em diversas , sentindo que minha taxa não está lá muito boa, mas que preciso achar uma loja e fazer um teste logo que possível. Encontro uma perto de uma parada do metro no Restauradores, loja turística onde há vendedores aparentemente indianos a atender. Vejo uma pulseira que me chama a atenção, decido que o valor coincide com o combinado na troca de prendas do jantar desta noite. Pago e pergunto se posso fazer o teste no balcão, mostrando o aparelho que utilizo. Ele olha-me com um sorriso estranho, mas não me intimido e furo meu dedo, pondo o sangue na fita e aguardando o resultado, que dá 42, ou seja, muito baixa. Ele me olha :


- Diabetes, não é?

- Sim...

Olha-me intensamente como se com os olhos quisesse mostrar uma verdade.

- Diabetes é doença de rico, pobre não tem isso.

Paro, sem nem compreender a estupidez do que ele está a dizer, nem acreditar.

Tudo que me sai, diante de minha exaustão física e pensamentos já fracos é:

- Isso é hereditário, não tem nada a ver.

- Mas é doença de rico, pobre não tem...

- Eu nem sou rica.

- Você é.


E aqueles olhos a me olharem como se a praguejar, como se a me culparem por algo que ele nem tem idéia do que é ou de quem sou ou do que essa doença me faz ser. Fiquei a imaginar depois o porquê de ter sido justamente aquela a loja a ter o que eu necessitava, e justamente aquele vendedor estúpido a ter me visto fazer o teste e falar algo tão desnecessário... E a cada dia se entende que em qualquer lugar podem se encontrar pessoas boas, mas da mesma forma encontramos pessoas de cabeça fechada, que não sabem ou pior, sabem o quanto palavras podem magoar.


E tudo de que precisamos, no fim das contas, é de um filtro para bloquear qualquer tipo de energia negativa...mas será que conseguimos?


















sábado, 10 de dezembro de 2011

A panela quente







- Vamos assistir a um filme, amor?


Ninguém quer se levantar. Mas vão.


Tela acende.



Casal conversa na cozinha. Ele pergunta se pode fumar lá fora.


Silêncio, algo que foi interrompido.


Olhar chateado da rapariga na tela.


Ele sai. Ela fica. A olhar para o arroz que está a se feito.


Água borbulha.


Ela desliga. Ele volta e diz que era para deixá-lo ligado.


Olhares que não se cruzam porque ela não deixa.


Corpos que não se cruzam porque ela não deixa.


Ele prepara a carne, põe na panela.


E pergunta:


- Tais chateada comigo?- e a abraça, e no canto do ouvido, sussura: - Desculpa...


E ela entende. Entende que não foi por mal. Entende que é bem difícil ficar perto dele e não querer tocá-lo, abraçá-lo, senti-lo.


Aceita suas desculpas e o beija por inteiro.



Tela apaga.


- E aí, gostasse?


- Sim, sim... por acaso me lembra um casal que conheço...


- Hum... acho que sei de qual você está falando... por acaso um é louco pelo outro, não é?


- Sim, sim... e até brincam de se imaginar juntos pelo resto da vida...


- É, engraçado.... engraçado porque muitas vezes as promessas mais sérias começam como brincadeiras...


- Sim,sim... mas e agora, vamos brincar de sermos felizes?


Beijos intensos e apertados.


Fim de cena. Tela preta onde aparece uma legenda:


``CONTINUA...``




quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Em busca de um bom jazz



Ser metódica. Tenho de ser metódica.




Chego em casa, espalho as roupas. Troco. Montanhas de roupas.


Montanhas de papéis.


Aprendo a tirar o lixo.


Aprendo a colocar a roupa para lavar.


E a alma? Me pergunto...


- E a alma, Emmanuel?



Me olha. E olhamos juntos para uma crise que cada vez mais cresce e cria raízes nas pessoas, e vemos em seus rostos cansados no metro, e acabo pensando se acabarei por me tornar mais uma delas, com olhar no chão e pensamentos preocupados... apesar deles já o serem.




- E se eu não conseguir?


- Você vai, porque tudo tem que dar certo... e você tem que estar perto de mim.




Viver em um país em crise muitas vezes nos dá uma sensação parecida a de vivermos em estado de sítio. Subitamente se percebe que a base que segura a todos nós pode ser puxada como um tapete. Olho para lojas, comboios, carros, e me pergunto como em uma crise comidas continuam a ser feitas, roupas continuam a serem compradas, pessoas continuam a viajar...o que é uma crise, afinal?




Vamos para a casa de um grande amigo. É servido o vinho, levamos bolo de bacia. Nos apresenta sua amiga.


- Terei de despedir pessoas este mês.


- Crise.


- Nos pegando a todos.


- Mas vamos mudar de assunto, sim?




É até estranho se iniciar uma conversa e não se mencionar este nome... ``crise``. Parece um assunto obrigatório e mesmo quando a palavra não está sendo mencionada, está lá, nos olhos, nos gestos de pessoas que nos rodeiam. Mas, ao final de tudo, ainda há o vinho bom e barato... e aquele cafezinho ao som de um bom jazz... e a vida continua, assim como o jazz, cheia de improvisações...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O depois do Adoro-te



- Adoro-te.

- Também. Adoro-te muito.

Abraço apertado. Chuva caindo enquanto somos apenas dois corpos juntos no banco de um auto-carro.

- Mas ainda não me peça.

- O quê?

- Para dizer o que eu ainda não estou preparado para dizer.

Sorriso fechado para mim.

- Tá bom, não pedirei.

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- Blá, blá, dia, blá, blá, feliz, blá, coisas,blá...

- Blá, blá, cama, blá, blá, quente, blá, blá, gosto,blá...

- Blá, blá, sinto, blá, blá, quero, blá, blá, paz...

- Amor, me passa aquele telemóvel ali, por favor?


Estaco.

Boca seca. Engulo. Percebo. Ouvidos atentos.

Paraliso.


- Espera. Repete.


Silêncio. Sorriso para ele. Rostos colados.

Ele engole em seco. Respira... e finalmente repete:


- Amor...- e não é suficiente para mim.

- Repete.

-Amo-...

- Repete.


Segundos equivalentes a dois minutos em outra dimensão, nesta nossa dimensão única de pulsação de força descomunal em que vivemos, eu e ele, nós dois. Ele me olha. Aproxima sua boca da minha, eu da dele. Olhos tão próximos que mal se consegue focá-los perfeitamente.


- Amo-te muito, Drica...


Rio de lágrimas que desce, formado por uma sensação maravilhosamente inquietante por sentir esta mesma coisa por este mesmo alguém que me vê, ali, sem máscaras nem medo, lado a lado, e por amá-lo tanto quanto.


- Também, muito mesmo...


E assim a noite fria se cala diante de tão inusitada cena, enquanto que nas ruas pessoas tomam cafés e se divertem ao assistir um jogo qualquer.