quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A fila que não anda e o tempo que passa mas não muda




Acorda-me minha mãe.

- Filha, mais gripada?
- Sim, mãe, sinusite.
- Mas também tosse e também gripe... e talvez febre. Filha você tem de ir ao hospital! Eu vi uma notícia de uma intercambista em Braga que estava doente e só foi se internar um dia antes de voltar pra cá, e faleceu! Não brinque com essas coisas...
- Tá, mãe... eu vou tentar ir sim...
- E como foi a mudança para a casa nova?
- Ah foi normal... todo mundo me ajudou...


Frio. Tosse. Sede. Até meios sorrisos.
Decido: tenho de ir ao hospital.
Almoço com quem gosto.
Passei romântico: ir ao hospital e passar a tarde neste, onde as dimensões de tempo parecem não existir.


HOSPITAL SÃO JOSÉ:

Passadas uma hora e meia.
- Licença...quantas pessoas faltam na minha frente?
- Hum...oito.

Passadas duas horas e meia.

- Licença...quantas pessoas?
- Hum... de dez a onze-

Passadas três horas até quase quatro.

- Licença..?
- Onze pessoas.
- Mas como assim?! Eu já estou há quase quatro horas aqui e o número de pessoas não diminuiu, até aumentou!
- Sim, mas é por que se chegam casos mais urgentes eles são atendidos primeiro...


Penso "Já paguei, e agora? Não me posso ir!" Emmanuel me olha.
Saímos um pouco. Resolvo então me utilizar da peça "Eu sou diabética, tenho horário para me aplicar e comer..." Para alguma coisa a diabetes tem que servir, não é? ;)

Inocentemente chego ao balcão de informações e informo esta minha problemática de ter de seguir uma rotina certa... Homem do balcão de informações(o legal, não o chato!) diz que se eu quiser posso ir lá dentro pedir comida se preciso. Penso "Não, comida não!Quero é ser atendida logo nesta merda!"

Mulher legal(não a chata em pé) atrás do balcão:
- Você pode ir lá dentro explicar sua situação, explicar que precisa ser atendida mais rápido porque tem horários a seguir...- Homem legal concorda com ela. Porta aberta para a quase liberdade! Me indicam para ir em frente, atrás de uma porta verde, e é o que faço.
Ao chegar lá, um mar de velhinhos estão em caminhas de rodas, esperando seus medicamentos, enquanto familiares os acompanham. Me aproximo do médico que está no computador anunciando o nome do próximo sortudo a ser chamado. Explico-lhe tudo.
- Hum... mas temos comida e insulina aqui.
- Mas a Lantus não... e eu tenho horário para aplicá-la.
- Qual era o horário?
- Sete e meia, mas agora já passou... - Ele pára e pensa.
- Tá, eu vou te atender, senta aqui um instante, sim?

Concordo e após momentos sou atendida.
Me ouve, pergunta e me passa antibióticos junto a outros remédios.

- Sua sinusite é crônica e deve ter piorado, você deve estar tendo uma crise...
- Mas no caso, se é crônica eu tenho que tentar ir pra um médico de família depois, não é?
- Sim.
- Mas é complicado, demorado também, não é?

Ele sorri.
- Sim, nem eu tenho um.

Simples assim, como só um sistema de saúde público, até na Europa, pode ser...
Saio com Emmanuel e vamos para casa. Farmácia? Todas fechadas pois já passam das nove da noite.
- Tudo bem, amanhã compramos...

... e assim, novamente, sou bem-vinda ao sistema de saúde português!

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Um dia de chuva.




- Foi naquele dia.

- Que dia?

- Não sei, um dia. Um dia de chuva, se não me engano.

- E o que aconteceu?

- Dançamos?

- Não, sim! Sim... ao som de uma música de jazz... qual era, lembras?

- Sim, sim...acho que uma de Ella Fitzgerald...

- E como foi? Como foi?!

- Puseste tuas mãos em volta de meu pescoço, delicamente, e eu encostei meu rosto no teu, sentindo teu perfume e sentindo que estavas a sentir o meu... dançamos ao final no ritmo da chuva e do vinho que havíamos tomado anteriormente.

-Não, não! Te enganas!

- Em relação ao quê? Ao vinho?

- Não.

- Ao teu abraço em volta de mim?

- Não, não.

- À nossa dança?

- Não,não, não!

- Ao quê, então?

- A tudo. Pois não houve dança naquele dia, nem abraços, nem teu perfume junto ao meu...

- E porquê não?

- Por que naquele dia não pude estar ao teu lado, devido a greve de comboios...

- Ah, foi... droga de greve de comboios!

- Sim, droga de greve de comboios...


Pela janela um vidro cinza se espelha, atrapalhando romances em fina estampa estrelada de melancolica... Lisboa é bela, ao final de tudo, e complicada como apenas ela sabe ser...

pena não estar ao teu lado hoje.


Malas se arrumam através de mãos geladas.

Mais uma nova etapa.

Mais desafios.

Às vezes parecem maiores que eu.

Mas tenho de fazê-los menores e, de acordo com o tempo e força de vontade, conseguirei.


Stars shining bright above you

Night breezes seem to whisper, 'I love you,'

Birds singing in the sycamore tree

Dream a little dream of me ...


just dream a little dream with me, honney.





quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O copo de música


- E eu poderia simplesmente encher este copo de música, assim como os teus pensamentos.
- Pois encha... o copo.
- Primeiro colocaria aquela tua antiga música preferida, de Keane. Depois ou até antes aquela outra, de Oasis...
- E por fim?
- Criaria uma música para nós, que suplantasse todas as outras, que não nos valem mais de nada.
- É verdade, não valem... mas valeram um dia, não valeram?
- Sim, sim, e é isso que te ronda a cabeça, eu sei... mas tens de confiar em mim...
- Eu sei, e eu confio...confio tanto que dá medo. Mas contigo não quero ter medo de nada... não
mais.

E talvez assunto encerrado.
E talvez uma história a nunca ser encerrada.
Apenas sentida até não se poder mais.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Eu, você e isto.






- Se eu pudesse te tirava esse cigarro da boca.


- É?Mas eu te odiaria, te chamaria de controladora.


- A merda é justamente essa. Então eu sigo, respeitando teu cigarro, tua fumaça, que seca teus pulmões e começa a mexer nos meus. Mas simplesmente não me importo... é quase como se o cigarro fosse parte de tu. Como se fosses parte de algum filme noir, com um charme terrível nesses olhos que não me canso de olhar e que me causam arrepios. Droga de cigarro!


- Sim, droga de cigarro. Eu sou uma droga?


- Pior que não.


- Te quero.


- Também te quero.


- Então fim de papo.




Beijos quentes. Calor. Ânimo que parece renascer das cinzas de uma crise que mais parece um barco pedindo para afundar. Mas há sempre pessoas a querer crescer, a querer viver bem, a querer serem felizes.


Pois há sim, há o ``continue`` e o ``não continue``. E temos sempre de escolher o ``continue``, como um botão sempre a ser apertado, apertado, mas afinal não somos todos máquinas, somos pensamentos, emoções, caras cansadas no metro, no comboio, olhando a vista bela e melancólica agora borrada pela chuva, em meio a um imenso mar que parece querer engolir uma pequena ilha, ali, aonde parece haver um farol.




- Às vezes, meu caro, é tão simples como escolher ou não uma taça de vinho.


- Sim, e é por isso que sempre te escolho... mas até quando beberemos vinho?


- Não sei, deixa o tempo decidir. Com você não consigo ser pragmático.


- Igualmente.



E todos os dias há vinho em Lisboa, chovendo, chovendo e formando rios de lágrimas, mas também de sorrisos fraternais que inundam nossos mais íntimos sentimentos.