
Acorda-me minha mãe.
- Filha, mais gripada?
- Sim, mãe, sinusite.
- Mas também tosse e também gripe... e talvez febre. Filha você tem de ir ao hospital! Eu vi uma notícia de uma intercambista em Braga que estava doente e só foi se internar um dia antes de voltar pra cá, e faleceu! Não brinque com essas coisas...
- Tá, mãe... eu vou tentar ir sim...
- E como foi a mudança para a casa nova?
- Ah foi normal... todo mundo me ajudou...
Frio. Tosse. Sede. Até meios sorrisos.
Decido: tenho de ir ao hospital.
Almoço com quem gosto.
Passei romântico: ir ao hospital e passar a tarde neste, onde as dimensões de tempo parecem não existir.
HOSPITAL SÃO JOSÉ:
Passadas uma hora e meia.
- Licença...quantas pessoas faltam na minha frente?
- Hum...oito.
Passadas duas horas e meia.
- Licença...quantas pessoas?
- Hum... de dez a onze-
Passadas três horas até quase quatro.
- Licença..?
- Onze pessoas.
- Mas como assim?! Eu já estou há quase quatro horas aqui e o número de pessoas não diminuiu, até aumentou!
- Sim, mas é por que se chegam casos mais urgentes eles são atendidos primeiro...
Penso "Já paguei, e agora? Não me posso ir!" Emmanuel me olha.
Saímos um pouco. Resolvo então me utilizar da peça "Eu sou diabética, tenho horário para me aplicar e comer..." Para alguma coisa a diabetes tem que servir, não é? ;)
Inocentemente chego ao balcão de informações e informo esta minha problemática de ter de seguir uma rotina certa... Homem do balcão de informações(o legal, não o chato!) diz que se eu quiser posso ir lá dentro pedir comida se preciso. Penso "Não, comida não!Quero é ser atendida logo nesta merda!"
Mulher legal(não a chata em pé) atrás do balcão:
- Você pode ir lá dentro explicar sua situação, explicar que precisa ser atendida mais rápido porque tem horários a seguir...- Homem legal concorda com ela. Porta aberta para a quase liberdade! Me indicam para ir em frente, atrás de uma porta verde, e é o que faço.
Ao chegar lá, um mar de velhinhos estão em caminhas de rodas, esperando seus medicamentos, enquanto familiares os acompanham. Me aproximo do médico que está no computador anunciando o nome do próximo sortudo a ser chamado. Explico-lhe tudo.
- Hum... mas temos comida e insulina aqui.
- Mas a Lantus não... e eu tenho horário para aplicá-la.
- Qual era o horário?
- Sete e meia, mas agora já passou... - Ele pára e pensa.
- Tá, eu vou te atender, senta aqui um instante, sim?
Concordo e após momentos sou atendida.
Me ouve, pergunta e me passa antibióticos junto a outros remédios.
- Sua sinusite é crônica e deve ter piorado, você deve estar tendo uma crise...
- Mas no caso, se é crônica eu tenho que tentar ir pra um médico de família depois, não é?
- Sim.
- Mas é complicado, demorado também, não é?
Ele sorri.
- Sim, nem eu tenho um.
Simples assim, como só um sistema de saúde público, até na Europa, pode ser...
Saio com Emmanuel e vamos para casa. Farmácia? Todas fechadas pois já passam das nove da noite.
- Tudo bem, amanhã compramos...
... e assim, novamente, sou bem-vinda ao sistema de saúde português!


